História de Guarapari.

Guarapari é um dos municípios mais antigos do Estado do Espírito Santo. Tudo começou em 1569, quando o padre José de Anchieta aqui passou, vindo do sul do Brasil, na comitiva do Governador Geral Mem de Sá, com a missão de fundar o quarto e último aldeamento em terras capixabas. Dezesseis anos depois, em 1585, Anchieta volta e inaugura, no alto de uma colina, uma capela dedicada a Sant'Ana, fundando a Aldeia do Rio Verde ou de Santa Maria de Guaraparim, que recebeu também os nomes: Vila dos Jesuítas, Goaraparim, Guaraparim e finalmente Guarapari. Vocábulo de origem indígena derivado de: GUARÁ - garça, ave (Íbis-rubra, nasce branca, fica acinzentada, torna a embranquecer e, por fim sua coloração é vermelho carmesim) e PARIM ou PARI - laço ou armadilha de pegar peixe. Etmologicamente: Guaraporé ou Guaraparim: Árvore silvestre da madeira arroxeada da família das Cumoniáceas e Mangue vermelho - manguezal predominante na região.

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Depois, em 1677, o Donatário da Capitania, Francisco Gil de Araújo, manda edificar uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, visto que a capela estava arruinada. Conta-se que esta igreja nunca chegou a ser totalmente construída, pois sofreu um incêndio. Cento e quarenta anos depois, em 1817, tentou-se a reconstrução, mas só foram refeitos o frontim e o campanário. A Ruína da Igreja é Patrimônio Histórico, tombada pelo CEC (Conselho Estadual de Cultura) em 26/11/1989.

Guarapari é elevada à categoria de Vila, pelo Donatário Gil de Araújo em 1º de janeiro de 1679 e instalado três meses depois, em 1º de março.

A Lei Provincial de 1835, criou a Comarca de Guarapari, que compreendia o Rio Itapemirim, Benevente e Guarapari.

Em 27/11/1872, a Lei Provincial nº. 43 cria uma nova Comarca composta dos Municípios de Guarapari e Benevente, com o nome de IRIRITIBA.

A Lei nº. 26 de 24/12/1878, delimitando o Município, foi sancionada pelo Coronel Manoel da Silva Mafra - Juiz de Direito e Presidente da Província do Espírito Santo.

O serviço de telégrafo foi inaugurado em 1888 e colocou Guarapari em contado com Brasil, influenciando sua emancipação política. Três anos depois, em 19 de setembro de 1891 é elevada à categoria de cidade.

A Lei nº 779, de 29/11/1953, fixa em três os Distritos que compõem o município: Guarapari (sede), Todos os Santos e Rio Calçado.

O município limita-se ao norte com Viana e Vila Velha, ao sul com Anchieta, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com Alfredo Chaves e Marechal Floriano. Tem uma população fixa em torno de 90.000 habitantes, que na temporada vai para 450 a 600.000 habitantes. A sede está situada numa planície litorânea a 4 metros de altitude ao nível do mar e o centro da cidade localiza-se numa península. O Município é composto por uma região costeira e serrana a uma distância aproximada de 15 km. Com 580,6 km² de área e clima tropical, é recomendada como estância e estação de repouso e cura. Guarapari faz parte da Região Metropolitana e dista de Vitória aproximadamente 54 km.

Até o inicio do século XX foi uma cidade portuária de bastante movimento. Entretanto, com a ligação rodoviária até a Capital do Estado - Vitória, o movimento do porto foi diminuindo até praticamente desaparecer e neste momento teve início o surto de turismo em Guarapari.

Tudo começou por volta de 1936 quando o médico e Cientista Dr. Antônio da Silva Mello chega a Guarapari e, encantado com a beleza paisagística e a riqueza das areias radioativas, publica artigos em "O Cruzeiro" e em revistas médicas sobre as propriedades Terapêuticas das areias.


RADIUM HOTEL.

Construído para ser uma Escola Naval (tanto que seu formato é de ancora), mais sua localização privilegiada, a fama da beleza paisagística e o valor terapêutico das areias radioativas de Guarapari, foram fundamentais para que a empresa Bianchi de Hotéis e Turismo arrendasse o empreendimento do estado por 10 anos, depois prorrogado por mais 5 anos, transformando o prédio que seria uma Escola naval num hotel cassino de padrão internacional e fazendo com que uma cidadezinha de apenas 5000 habitantes, disputasse qualidade e fama com o cassino do Grande Hotel Araxá - MG, o Hotel Quitandinha - Petrópolis - RJ, Hotel Guararapes de Recife, Hotel das Cataratas do Iguaçu, etc.

Inaugurado em 1953, para ser hotel cassino de padrão internacional, ocupava um prédio com três pavimentos, possuindo 37 apartamentos e 26 quartos, com um total de 140 leitos. Havia duas suítes especiais para as autoridades. Dois salões - um de jogos e outro de lazer. A área construída tem 2.100 m² e a área útil 8.796 m². Na época de glória, a empresa arrendatária possuia três aviões "Douglas", com capacidade para transportar 22 passageiros cada, colocada a disposição dos hóspedes e jogadores. Os aviões aterrissavam em Guarapari na sexta-feira de manhã e decolavam segunda-feira, às 9 horas. Foi para atender a demanda do hotel que foram construídos o aeroporto e a ponte, pois antes a travessia para Guarapari era feita de balsa e canoa. As louças do hotel eram de porcelana importada, as baixelas e talheres de prata e as roupas de cama e toalhas de mesa de linho. Vinha para Guarapari a elite política e social do país para jogar no cassino, cabendo citar o Conde Francisco Matarazzo, Maysa Matarazzo, Assis Chateaubriand, Rubens Braga, o ministro João Pinheiro, Ibrahim Sued, Carlos Lacerda, Jones dos Santos Neves, Carlos Lindenberg, Eurico Resende, Garrincha e turistas vindos da Itália, França, Alemanha, Coréia, Inglaterra, Portugal, Espanha, Estados Unidos e outros países. Astros da música e do cinema ocuparam seu palco. Por ali passaram Francisco Alves, Ângela Maria, Dirce e Linda Batista, Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Grande Otelo, etc.

Segundo o Sr Bento Nossa Belisari que trabalhou no hotel por 12 anos, desde sua inauguração (tendo iniciado como copeiro, passando a "barman", "maitre", até chegar a chefia de salão), o Sr. Alberto Bianchi (dono do Radium) e o Dr. Antônio da Silva Mello foram os pioneiros a divulgar Guarapari. O Dr. Silva Mello levou amostras de areias para Berlim para os seus colegas de faculdade, que depois vieram analisar de perto as propriedades medicinais da mesma. Depois começaram a chegar turistas de toda a parte do mundo; uns vinham para tratamento, outros para desfrutar as belezas e a tranqüilidade da cidade. Havia um Clínico Geral, Dr. Waldemar Bianchi (sobrinho do proprietário), exclusivo do hotel, só para orientar as pessoas no tratamento, atendendo também aos funcionários e outro médico, Dr. Oscar da Costa Neiva que atendia aos hospedes, aos funcionários do hotel e aos moradores da cidade.

Os cassinos foram proibidos no Brasil no Governo do Presidente Eurico Gaspar Dutra, no final da década de 40 do século XX. Porém, os proprietários fizeram vista grossa e continuaram por um bom tempo desobedecendo a lei até que não fosse mais possível continuar e todos os cassinos foram fechados, aproximadamente em 1964.

Logo após, o governo não quis renovar o acordo de concessão e o hotel passou a ser administrado pela Empresa de Turismo do Estado - EMCATUR, e o hotel mais bem localizado da cidade começou a entrar em decadência. Em 1992 o Corpo de Bombeiros lacrou o estabelecimento, pois o estado de conservação era tão ruim que colocava em risco a vida dos hóspedes; a fiação de energia elétrica estava toda descascada e passava sobre o madeirame velho do sótão. Depois disso o hotel passou a ser depredado, até ser lacrado pela justiça e colocado em leilão. Deveria ser leiloado no dia 25/06/1998 para quitação de dívidas trabalhistas, atendendo as dez ações movidas por 61 ex-funcionários da EMCATUR - empresa que se encontrava em processo de liquidação desde 1991. Em 1993 foi assinado um contrato de comodato entre o município de Guarapari e o Governo do Estado dando uma destinação ao Radium Hotel para que fosse utilizado em atividades culturais e sociais. O prédio foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio Histórico Cultural, em 1998, mas foi penhorado pela Justiça do Trabalho para garantir o pagamento das dívidas. A Lei Municipal nº 1.777/98, decretou que o entorno do imóvel é área ambiental, garantindo sua preservação. Em 2004, o Governo do Estado assumiu a dívida trabalhista e recuperou o antigo hotel e a AMOCENTRO - Associação de Moradores do Centro luta para transformá-lo em um Centro Cultural.


SIRIBEIRA CLUBE.

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Tudo começou com amigos seresteiros que se reuniam na praia para cantar e tomar um aperitivo e contemplar aquela encantadora península, que na maré alta unia as praias da Areia Preta e do Meio e transformava o pontal em ilha. Segundo Silva Mello, era uma paisagem impar "com uma perspectiva perfeita das rochas contra o mar".

Destes amigos, cabe citar Dr Heliomar Carneiro da Cunha, Osvaldo Epaminondas do Almeida (que foi prefeito de Guarapari), Simplício de Almeida e Everaldo Carvalho Nascimento. Segundo depoimento do Sr. Everaldo, quem idealizou tudo foi Heliomar C. Cunha que havia sido "imbuído por um devaneio de praia, numa manhã curtida de sol, para criar aquela que seria por muitos anos, a alegre agremiação onde as famílias se irmanariam numa convivência respeitosa e feliz". Em 1947, o General Eurico Gaspar Dutra, então Presidente do Brasil, deu o titulo de posse e Heliomar C. da Cunha e Epaminondas de Almeida fizeram os títulos de Sócio Proprietário, no valor de 1000 cruzeiros e a maioria foi vendida para pessoas de Vitória, Minas, São Paulo e outros estados. A primeira festa aconteceu no dia 11/02/1947 e, como não podia deixar de ser, era carnaval. Uma semana depois, aconteceu a cerimônia de lançamento da pedra fundamental. No dia 18 de fevereiro de 1948, nasceu o SIRIBEIRA IATE CLUBE, fruto da conversa de amigos, seresteiros e companheiros de "maratimbas" (nativos da região). Primeiro foi construído um rústico barraco de palha, onde se improvisava um palco e o músico Gervásio Bodart, no comando do conjunto "Muquiçaba Serenaders", animava os foliões com animadas marchinhas.

Depois foi construída a sede, decorada com redes, peneiras e cascas de sururu, bem regional. O projeto da sede foi realizado por Hélio de Almeida Viana. A seqüência de festas era animada pelas orquestras Hélio Mendes, Mauricio de Oliveira, H.O. e outras e culminava com o carnaval que mereceu uma nota do famoso colunista Ibrahim Sued: "...Existe no Espírito Santo um clube que faz um carnaval que rivaliza com os melhores carnavais do país e tem um nome esquisito Serebera..." Isto motivou a vinda de jornalistas do Rio e São Paulo e da TV Tupi, a mais importante emissora da época para fazer a cobertura da folia de Momo.

O nome SIRIBEIRA foi escolhido em função de existir na pedra, numa poça d'água alimentada pela maré alta, uma árvore curvada pelo vento - árvore do Siri ou Sireiba, Rhizofora Mangle, mangue vermelho, manguezal predominante da região, cuja casca - o tanino, é usado pelos artesãos de panela de barro para tingir de negro o mais tradicional artesanato do Espírito Santo, onde são preparadas as famosas Moquecas. Esta árvore caiu num vendaval na década de 60.

Como Guarapari, o Siribeira Clube foi perdendo seu glamour. O último grande baile foi realizado no Reveillon/2000, cabendo ser citado o trecho do convite: "Optamos por um momento que traduzisse tranqülidade, pacificidade e harmonia no simples e no belo. O famoso Clube de glórias passadas sempre estará guardando em si uma extraordinária vitalidade. Plantado numa ponta rochosa que investe mar a dentro, sem dúvida o local apropriado para abrirmos as janelas dessa nova era... O importante é ser feliz... E a palavra chave para o novo milênio é paz."


Este trabalho é parte do livro á ser editado: "Guarapari Muito Mais que um Sonho Lindo" - Beatriz Bueno / 1983-2005.

Fontes: Jornais: A Gazeta - encartes comemorativos.

A Tribuna - encartes comemorativos.

Primeira Página - encartes comemorativos.

Entrevistas: Bento Belisari Nossa - ex-funcionário do Radium Hotel.

Everaldo Carneiro Nascimento - Comodoro do Siribeira Iate Clube

Mello - Antônio da Silva, Guarapari Maravilhas da Natureza, Empresa Gráfica "O Cruzeiro" - Rio de Janeiro - 1971.

6 comentários:

Anônimo disse...

Inaugurado em 1953, para ser hotel cassino de padrão internacional????? Como? O jogo foi proibido em 46.
O Conde Matarazzo NUNCA pisou em um cassino.

Anônimo disse...

A Siriba ou Siribeira, não é a Rhizofora Mangle, mangue vermelho, é Avicennia schaueriana, uma arvore de grande porte que incide em locais mais secos do manguezal e em beiras de praia onde há muita salinidade.

Anônimo disse...

Pf! coloca a historia da ponte e da biblioteca dak

vlw

Anônimo disse...

A história da cidade vem sendo contada de forma truncada, por öportunistas que se arvoram em escritores. Náo dá!

Anônimo disse...

Sim, mas neste país desde o tempo do império, o poder econômico recebe os FAVORES da lei e a plebe os RIGORES da mesma lei. Antes dizia-se assim: Dura lex, sede lex, no cabelo só gumex. Hoje no entanto, diz-se assim "Dura lex, sede lex, no cabelo só vaselina. Estamos vivendo neo Brazil, escrito com Z de mazelas. Concorda...

Anônimo disse...

Como a outorga foi um ato do Presidente da República, o justo seria a criação de um clube popular, porém a discriminação imperou e fora criado um clube para a burguesia. A plebe, os nativos, para assistirem os bailes de carnaval se acotovelavam nas cercas de arame farpado. Que página negra da nossa história!!
Este é o desabafo de um verdadeiro maratimba, nascido na rua das bonecas.

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